Blog do Rauber, o Alemão


Pondé - Redes Sociais

Luiz Felipe Pondé é um sujeito que tem causado certa polêmica por aí. Filósofo e psicanalista, colunista da Folha de São Paulo, esteve no ciclo Fronteiras do Pensamento e vem conseguindo projeção para além do âmbito acadêmico.

Não sou o maior conhecedor do seu trabalho; alguns textos são interessantes, em especial os insights psicanalíticos, embora por vezes Pondé resvale em uma crítica um tanto vazia de alguns valores e padrões contemporâneos, com tintas neoconservadoras (neocon) e de de denúncia do 'politicamente correto' – tema que me incomoda um pouco, conforme post de abril desse ano. Sobre o ponto, aliás, indico este texto: http://revistaalfa.abril.com.br/entretenimento/humor/os-jovens-humoristas-e-a-falta-de-compaixao/

Porém, Pondé tem algumas coisas a dizer. Vou reproduzir trecho de entrevista publicada na última Revista VIP, sobre redes sociais:

 

REDES SOCIAIS

Afinal, elas ajudam ou atrapalham ?

A internet é uma dimensão da libido. Mas é cansativo esse clima que ela cria de balada contínua, todo mundo feliz, todo mundo superlegal procurando eye contact. A gente não tem muita coisa para falar, mas a democracia cria uma expectativa de que todo mundo tenha opinião, saiba o que pensa. Acho que a maior parte do tempo a gente não sabe o que pensa, vai vivendo bestamente como sempre viveu. Essa síndrome da democracia fica estimulando você como se você tivesse que saber o que quer. Então, acho que o Facebook e o Twitter potencializam isso, essa dimensão banal, essa dimensão de expectativa que tem 2 cm de realização, ela se realiza como uma espécie de sonho sob controle.”



Escrito por Rauber às 22h09
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Sobre bergamotas e campeonatos

 

Após um certo surto de postagens em meados de abril, fui lá viver um pouco e deixei o blog estacionado, meio que à espera de uma inspiração mais genuína ou relevante, de alguma reflexão compartilhável. Gosto de tocar o site de forma espontânea, sem muita pretensão de atualização sistemática.

Reluto, por exemplo, em requentar certos temas explorados pela imprensa. Em verdade, me faltaria até conhecimento de causa, pois ando bem enfarado com o noticioso cotidiano, a ponto de não acompanhar certas matérias.

De qualquer modo, poderia enveredar por algumas amenidades outonais e invernais, feito a safra da bergamota (tangerina ou mexerica em outros rincões do Brasil), os comes, bebes e roupas da estação mais fria, o Free Shop novo de Bella Unión, aplicativos bacanas do Iphone, a volta do Yakult às prateleiras do Nacional da Nilo, a ideia de comprar uma tartaruga de estimação, etc.

Contudo, e embora tenha alguns posts e escritos em gestação, vou aproveitar o exato dia de hoje para fazer breve registro do término do maior torneio de futebol do mundo. Sim, todos viram que o bom time do Santos levantou ontem o caneco da Libertadores 2011, em face do estimado e peleador Peñarol. Título justíssimo, é certo.

A par do fracasso da dupla Grenal e mesmo de outros brasileiros, muito positivo o saldo da Copa que consagra Neymar, o pirocóptero, a maior bandeira do mundo, e, claro, o renascimento do mito Wason Rentería e seu ruque-raque .

Outra hora divido algumas reflexões sobre futebol sul-americano, civilidade, profissionalismo, técnica e outras cositas.

Feitoria.



Escrito por Rauber às 00h20
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Balanceado

 

Faz um certo tempo que estou para indicar o restaurante Balanceado, que fica na praça de alimentação do Moinhos Shopping.

O carro-chefe do estabelecimento está em um menu de saladas interativo em que o freguês escolhe 8 itens (sim, OITO) para a salada, o molho, o acabamento, etc.

Ou seja, é tipo um Subway de saladas.

Dentre os itens disponíveis para a montagem do prato, além dos tradicionais vegetais há massa fusilli, frango desfiado, atum, ovo, ou seja, carboidratos e proteínas que compõem, justamente, uma refeição mais balanceada.

Na primeira vez dei uma de guri emocionado e misturei coisas demais (8 variedades é muito), não ficou muito harmônico. Retornei e fiz pratos mais coerentes, usando só uns 5 ou 6 itens – é possível repeti-los, aliás.

Lhes digo que a porção é bem generosa, alimenta, e o preço é muito bom – uns 10 mirréis a salada.

O Balanceado também oferece grelhados e wraps, dentre outras coisas, pra quem não estiver numa pilha tão natureba.

Vale a pena.



Escrito por Rauber às 15h23
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Toque dela

 

 

Tenho ouvido com atenção o novo disco de Marcelo Camelo – Toque Dela –, lançado na semana passada. A capa é essa aí de cima. Nas primeiras audições, não havia gostado muito do material, agora já estou apreciando algumas das melodias e canções.

Fundamentalmente, é um trabalho que não representa grande inovação ou ruptura em relação a seu antecessor, o ótimo “Sou”, seguindo alguns caminhos apontados naquele álbum. Vejo isso como um fato um pouco negativo, pois de Marcelo Camelo se espera um passo à frente, uma evolução, transformações, etc. Sua postura artística, aliás (e o próprio sempre fez questão de afirmar isso), nunca se caracterizou pela acomodação. Prova disso é a evolução sonora do Los Hermanos e mesmo a separação (“pausa ?”) do grupo.

Como impressão geral, incomoda também que o disco se apresente demasiadamente açucarado. Senti falta de maior tensão, quebras, sentimentos contraditórios, energia.

Não que esses elementos sejam marcantes na carreira do compositor, mas este já apresentou, em outros momentos, e dentro de sua natural sutileza, uma sensibilidade mais complexa, que não o mero lirismo contemplativo.

Toque Dela é (praticamente) todo paz e amor.

Nesse sentido, honestamente, também esperava mais das letras. Ou, ao menos, maior variedade temática e carga poética.

Claro, há sonoridades interessantes, timbres, arranjos, variedade de instrumentos, e, principalmente, melodias bem boas. É nítido o apuro e o esforço de Camelo na gravação e acabamento das faixas, o que deve ser respeitado - até elogiado.

A noite” inaugura o disco remetendo ao clima de “Sou” e seus temais mais arrastados. Legalzinha, mas não impressiona muito.

Ô ô” é uma boa canção pop com açúcar, já apresenta uma levada mais ágil. Bonitas as intervenções dos metais, do saxofone. Me pareceu a melhor música do álbum.

“Tudo o que você quiser” também é uma música interessante, fala da “cidade que não volta” - presumivelmente São Paulo, para onde ele se mudou.

Acostumar” até que é bacaninha, destaco a melodia e o vocal. Talvez seja a música que melhor se harmoniza e funciona com a proposta toda do álbum.
Pra te acalmar” flerta com um andamento meio bossa nova com guitarras, xilofones, me soou uma mistura intrigante.

Vermelho” é uma das melhores músicas do álbum. Gostei da forte marcação da percussão. Violão, refrão, novamente os metais e o saxofone. Boa.

Não consegui gostar de “Pretinha” e “Três Dias”.

Por certo seria um pouco simplório reduzir a inspiração do disco ao relacionamento do cantor com Malu Magalhães, mas também é difícil evitar alguma associação entre estas canções e o cotidiano amoroso do músico.

Pode-se dizer, portanto, que o álbum, em algum grau, é um registro sincero desse momento pessoal do artista, o que até é bacana, bonito, mas que não necessariamente gera uma grande obra musical.

Em suma, estou achando um disco razoável, que vale a pena ser ouvido, mas que não se destaca muito, considerada a trajetória do Camelo e o anterior “Sou”. Salvo, talvez, para aqueles fãs mais incondicionais.

Resta conferir como vai ficar tudo isso ao vivo – e estarei no Opinião no dia 12/05, prestigiando também a abertura de luxo da Apanhador Só.



Escrito por Rauber às 23h23
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Cisne Negro

Cisne Negro segue gerando reflexões e assunto em mesas de bar, o que me anima a registrar por escrito algumas impressões que sejam.

Para os padrões do Oscar, o filme efetivamente é um tanto 'pesado' e impactante, mas o fato é que a premiação (melhor atriz para Natalie Portman) atraiu muita gente ao cinema, fomentando o debate em torno da obra.

Não deixa de ser interessante – para além do mérito ou demérito do filme em si –, aliás, que a maciça divulgação proporcionada pelo Oscar acabe induzindo o grande público a travar contato com títulos que provavelmente não assistiria, em face da temática, do conteúdo forte e da própria postura artística mais ousada. A seu modo, parece até se cumprir uma das funções da arte, ou seja, a de confrontar o espectador e seus valores, anseios, medos, tirando-o da tal “zona de conforto” (à falta de expressão mais precisa). Ainda assim, registro que notei pessoas deixando a sessão no meio do filme - comportamento que jamais compreenderei.

Pois bem. Pedirei licença a Nietzsche para profanar um pouquinho seu pensamento – acho que ele está acostumado e nem mais se importaria. Tornou-se um tanto clichê falar do bigodudo, o que certamente não invalida o estudo de sua obra (talvez até demonstre a sua força), mas, reconheça-se, saturação sempre cansa.

Contudo, e não que eu seja o intérprete mais autorizado do autor, vou me permitir fazer breve uso das conhecidas categorias dos ideais “apolíneo” e “dionisíaco”, chave de leitura interessante para Cisne Negro.

Niezsche trabalha, fundamentalmente em O Nascimento da Tragédia e em outros ensaios (A Visão Dionisíaca do Mundo), as visões Apolínea e Dionisíaca de mundo.

Apolo era o deus grego da beleza, do sonho (entendido como representação fiel, não como devaneio), da perfeição, do equilíbrio, da razão.

Dionísio (Baco), o deus do vinho, da embriaguez, do arrebatamento, do instinto bárbaro, da quebra irracional de limites.

Possível, pois, em brevíssima síntese, visualizar a arte apolínea conectada à vontade de perfeição técnica, e a dionisíaca associada à catarse, à transcendentalidade artística.

Ambas forças e impulsos atuariam, no espírito humano, como pólos complementares, em tensão dialética (apolíneo X dionisíaco) cuja síntese seria a arte extasiante, intensa e elevada como a própria existência humana – a tragédia grega.

O filósofo alemão defende, assim, ser este conflito de pulsões (apolíneo X dionisíaco) que origina a famosa tragédia grega, manifestação artística que (para além da qualidade estética) é representativa da moral antiga, tida como afirmativa e cultora de um amor à vida na qual se suplantam as culpas, negações e ressentimentos da moral judaico-cristã. Há, portanto, o elogio da moral grega como forma de crítica à moral judaico-cristã, crítica que posteriormente se mostra marcante nas obras do autor e se conectará à ideia de transvaloração dos valores, dentre outros conceitos.

Podemos esquematizar a tese, de modo rasteiro e para simplificar o texto, na fórmula “apolíneo + dionisíaco = tragédia.”

Tais perspectivas propiciam uma interessante linha de análise de variados fenômenos.

No caso de Cisne, um dos subtextos identificáveis diz respeito ao conflito entre uma Nina pura, perfeccionista, apolínea (Cisne Branco) e uma Nina instintal, visceral, dionisíaca (Cisne Negro), contraste que nos conduz, assim como em Nietzsche, a uma espécie de tragédia grega.

Sob esse ângulo, o filme explora muito bem a dualidade de facetas, e mesmo a sua complementaridade, tudo levado às últimas consequências – sobretudo na (des)construção psíquica e identitária da protagonista.


Raros filmes trataram com tanta propriedade e profundidade a transformação do personagem e os processos mentais envolvidos na complexa teia de elementos contemporâneos ali presentes – pressão profissional, repressão familiar, relações de concorrência e “amizade” femininas, desenvolvimento artístico, esquizofrenia, etc. Lembrei-me, e indico, Persona, do Bergman, filme bem psicologizado.

Tudo em Cisne, claro, foi reforçado pela atuação belíssima de Natalie Portman, que dispensa comentários. Só não gostei muito de algumas cenas que, pela própria impostação da música, descambam para um certo suspense/terror - na minha opinião não acrescentaram muito.

Um grande filme, seguramente. Recomendo muito, também, O Lutador, filme anterior do diretor (Daren Aronofsky), o qual tem seus pontos de conexão com Cisne Negro.



Escrito por Rauber às 20h54
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Bolsonaro e "politicamente correto"

 

Excepcionalmente, vou tratar de um fato cotidiano que gerou bafafá na mídia, mesas de bar, bingos e bolichos em geral – o “caso Bolsonaro”. Também de forma excepcional, vou buscar defender um ponto de vista, ao invés de meramente lançar provocações e pensamentos ao léu, exercício descompromissado que, sinceramente, em geral me agrada mais.

Mas hoje o papo é mais sério. Em verdade, nem pretendo analisar a entrevista e os fatos ocorridos no CQC, mas antes um discurso que tem me incomodado há algum tempo e que se poderia diagnosticar como a banalização da crítica ao “politicamente correto”.

Até onde me recordo, o ideário do que se passou a designar por 'politicamente correto' surge com a contínua adoção de termos mais neutros (ou eufemismos) para designar grupos um tanto marginalizados da sociedade. Uma espécie de adequação vocabular em que o deficiente físico (antigo “aleijado”) virou portador de necessidades especiais, o viado virou homossexual (GLS, GLBT), etc.

É certo que o rigorismo, exagero e insistência na imposição de tais vocábulos (“melhor idade” ?? O que havia de tão pejorativo em “terceira idade” ?) justificam dadas críticas, seja pela paulatina construção de uma certa censura, seja pela simples aniquilação de um senso de humor mais escrachado.

Diga-se de passagem, aliás, que a exploração humorística do “politicamente incorreto” pode, mesmo aos espíritos menos preconceituosos e livres, produzir diversão e obras interessantes.

Ocorre que dita crítica, inicialmente válida ou mesmo divertida, em algum momento descambou para a legitimação pura e simples da ofensa gratuita. Mais do que isso: a crítica grosseira e generalizada atingiu o status de “discurso crítico do sistema”, como se grande valor intelectual ali houvesse.

Ora, a denúncia – repita-se: mesmo que pertinente – das restrições vocabulares criada pelo “politicamente correto” não autoriza a automática regressão à pueril ofensa estereotipada.

Percebo que nossa época, que desvaloriza a reflexão em prol das bravatas de 140 caracteres no Twitter, cada vez mais vem a reproduzir esse discurso de glorificação à agressão verbal.

Qualquer opinião minimante séria passa a ser rotulada como “hipócrita” e “politicamente correta”, como se a ponderação e mesmo a polidez fossem elementos absolutamente desnecessários ao discurso racional.

Apenas é válido o argumento levado ao extremo e externado de forma estupidamente ofensiva e contundente. Todo o resto é “politicamente correto”.

Semelhante postura, por demais agressiva, em nada agrega à construção de soluções dialógicas ou conjuntas. Mais vale tentar impor nossas bravatas e valores aos outros do que buscar o diálogo - mais vale recorrer à irracionalidade para validar nosso argumento.

Esse contexto discursivo, assim me parece, está por trás de algumas opiniões que vem sendo lançadas sobre a postura de Jair Bolsonaro, leituras que incorrem em dada glorificação do deputado como o paladino da franqueza e de suposta crítica ao politicamente correto.

Que fique claro: não estou questionando o direito à liberdade de expressão de Bolsonaro. Pelo contrário, acho que pode legitimamente expressar suas opiniões e que, inclusive, não incorreu em qualquer crime no caso específico das declarações feitas ao CQC.

Estou questionando é o efetivo valor que se dá à opinião do deputado. Há verdadeira romantização de sua argumentação irracional, o que vem a reforçar a cruzada contra o tal “politicamente correto”, termo entendido de forma cada vez mais ampla.

Está-se a banalizar esta expressão e enquadrar, como “politicamente correto”, qualquer pensamento que busque maior serenidade e medição das palavras (e a cautela verbal é praticamente uma imposição da sociedade civilizada), ao mesmo tempo em que se glorifica a pura agressão verbal.

Buscando ilustrar isso tudo, não custa construir 3 frases, relativas inclusive à categoria profissional a que pertenço:

1) “O serviço público brasileiro têm mazelas históricas, custa caro aos cofres públicos e reproduz, no geral, uma atmosfera de ineficiência, inclusive pela qualificação insuficiente do corpo de servidores, quadro que, infelizmente, não foi alterado de forma substancial nos últimos anos”.

2) “Em que pese as dificuldades diariamente vivenciadas, é inegável que o serviço público brasileiro, hoje formado, em sua maioria, por pessoas sérias e que prestaram disputados concursos públicos, se encontra em momento histórico de franca ascensão e aprimoramento.”

3) “Funcionário público é tudo vagabundo!”

 

As duas primeiras, honestamente, me parecem opiniões - ainda que discordantes - ponderadas e minimamente refletidas acerca do tema enfocado.

A terceira verbaliza uma bravata irracional que, francamente, em nada contribui para o debate.

Qual das três se pode imaginar o Dep. Jair Bolsonaro pronunciando?

Pior: as duas primeiras, aos olhos de alguns, facilmente se adequariam ao rótulo do “politicamente correto', da “hipocrisia”, ao passo que a terceira, certamente, seria aquela “contundente”, “sem meias verdades”, “contra o politicamente correto”...

 



Escrito por Rauber às 00h46
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Super Bowl XLV

 

 

Passei boa parte da juventude envolto em ambientes em que gostar dos EUA soava a afronta. Era quase pior do que gostar das músicas que Latino e seu bigodinho safado compunham à época.

Tirante algumas manifestações contraculturais (beatniks, punk rock, grunge, etc), aceitas pelo cunho contestador, qualquer simpatia americana era logo associada ao neoliberalismo, imperialismo, ganância, guerras, e, sei lá, à GORDURA, dentre outras coisas sabidamente abomináveis naqueles tempos de certa imaturidade política em geral. Na virada do milênio, Porto Alegre era uma cidade assumidamente esquerdista (PT no governo municipal e estadual, Fórum Social Mundial, MST na rua, legalize no Gasômetro, etc etc), acentuando a veia hippie da urbe. A galera do “podicrê, véio” comandava.

Digno de nota, aliás, o quanto a própria cultura estadunidense – e o culto à liberdade de expressão – sempre produziu em termos de autocrítica, humor cáustico e politicamente incorreto - caldo de contracultura escasso em sociedades ditas “mais cultas”.

Claro que, com o passar dos anos e a (pretensão de) maturação de algumas ideias e pensamentos, tende-se a arrefecer a carga de pré-conceitos e buscar-se – assim pelo menos se espera – análises mais ponderadas dos fenômenos da vida. Nem que seja por pura rejeição a ideais tidos por juvenis.

Daí é que, mesmo não sendo ainda um entusiasta de tudo o que vem da América, como aquelas panquecas com xarope de mel, tenho grande interesse em conhecer as terras ianques, bem como sincero respeito por sua produção intelectual e até mesmo seu funcionamento institucional.

Me irrita, aliás, certa oposição maniqueísta entre “cultura européia” X “cultura norte-americana”, como se aquela fosse em si dotada de maior legitimidade, conteúdo histórico e profundidade no olhar. Da mesma forma que me incomoda a distinção entre “alta cultura” X “cultura popular”, como se a produção de uma elite intelectual (erudita) fosse intrinsecamente superior aos batuques do povão.

Todo esse intróito e conversas paralelas pra dizer que não há como negar que o Super Bowl (final da NFL, a liga de futebol americano) é um baita de um evento.
Organização impecável, público e audiência absurdos (foi batido o recorde de telespecs da história da TV) , com direito a um show competente do Black Eyed Peas no intervalo. A banda fez um pout-pourri de sucessos, intercalando trechos das músicas, coreografias, convidados (SLASH sendo içado ao palco dedilhando ferozmente Sweet Child O'Mine foi massa – Axl deve ter ficado puto), show de luzes, tudo bem ao gosto americano e na medida para divertir uma massa de mais de 100 mil torcedores. Não adianta, mandem Olimpíadas e Copas do Mundo pra lá que funciona.

No campo, o Pittsburgh Steelers do bravo Big Ben (quarterback que arrasou na final da conferência contra o NY Jets, mas anteontem foi mal) saiu tomando uma COSSA do Green Bay Packers, mas equilibrou o jogo e levou até o último minuto a possibilidade de virar a partida. Porém, a última campanha dos Steelers acabou fracassada, tornando os Packers campeões pela quarta vez. Festa na pequena cidade de Green Bay. Destaque para Jordy Nelson e Aaron Rodgers, estrelas da final.

Acompanhei algumas partidas dessa temporada pela ESPN. Tenho achado um rico de um esporte, recomendo superar a preguiça mental de entender as regras – que na real são bem simples.

Precisa de um estímulo maior? Toma que a Lingerie League é tua, minha autarquia.



(foto aleatória para aumentar a audiência do blog)

Tá, agora vamos lá pro quintal fazer nosso churrasco de hamburguer com ketchup, ouvir música country e SARACOTEAR com as cheerleaders até o próximo Super Bowl.



Escrito por Rauber às 21h35
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Retrato do capricorniano quando jovem

 

Creio que Fabrício Carpinejar bem poetizou a questão de completar primaveras no mês de janeiro:


Meu aniversário está enterrado em janeiro.

nas folhas intactas da agenda,

na relva alta do calendário,

que o verão encrespou e faltou jardinar.

As aulas terminavam

e permanecia com a idade parada,

imune. Um pintassilgo

impossível de se reconhecer no muro.

Meu aniversário está enterrado em janeiro,

anônimo em alguma praia.”

(Livro de Visitas, p. 76)


Abraço aos colegas janeiristas.

 



Escrito por Rauber às 23h06
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Melhores

 

Na rabeira do ano (da década também), é de praxe que se proceda a algum tipo de balanço e se façam as tradicionais listas de melhores-qualquer-coisa-do-ano.

É certo que tais listas, como todas as boas coisas dessa vida, são inúteis, imprecisas e errôneas, mas vou me dar ao direito de errar também, explicitamente.

Vejamos... Música.

Impossível não destacar o álbum de estreia da Apanhador Só (baixe o disco gratuitamente em www.apanhadorso.com/), já exaltado no blog. Chegaram a ser indicados como revelação no prêmio da MTV, o Video Music Brasil, mas perderam pra alguma banda emo – a votação era pela internet.

Corrijo aqui essa injustiça e lhes dou o troféu de 2010 na categoria principal – “o que eu mais gostei”.

Não acompanhei muito o rock internacional, mas aparentemente nada se destacou muito - Strokes e White Stripes seguem devendo novos discos.

Também não foi lá uma safra muito consistente para a MPB.

Não gostei muito do álbum da Vanessa da Mata (Bicicletas, Bolos e outras Alegrias). Porque não. Sim (2007) era um bom disco.

Seu Jorge and Almaz: razoável, apenas. Isso que eu gosto do cara, tirando a horrenda versão da música do Closer (É isso aí..)

Luisa Maita fez uma boa estréia com seu Lero-Lero. Vale conferir.

Aguardo trabalhos novos de Robera Sá e Maria Rita para 2011.

Indubitavelmente, o melhor disco de MPB é o de um uruguaio que mora em Espanha – Jorge Drexler.

Nesse último trabalho (Amar la Trama - 2010), há maior espaço na sonoridade para os metais (sopros), para o pop e para acordes mais abertos e vibrantes. No geral é um álbum mais animadinho do que os anteriores.

Gostei de praticamente todas as músicas, mas vou destacar Las Transeúntes (que beleza de melodia e crônica), La trama y el desenlace (potencial de hit pop), Tres mil millones de latidos, Una canción me trajo hasta aquí (uma das músicas gravadas ao vivo em estúdio, belo pop e um bonito fraseado de metais), Todos a sus puestos, Noctiluca (tradicional sensibilidade do uruguaio), I don't worry about a thing.

Gosto da poética do Drexler, vamos destacar algo das letras.

Em Las Transeúntes se estabele um retrato de cena cotidiana (Mirando desde mi balcón, las transeúntes, Haciendo de cuenta que estoy tomando apuntes, Y ella busca algo en su cartera. Y yo me digo ya llegó la primavera) que culmina na pergunta fundamental a ser feita internamente:

 

¿Qué es lo que viste en mi?

¿ Qué es lo que te hizo abrir así

Tus miedos, tus piernas, tu calendario,

Las siete puertas sagradas de tu santuario,

La extraña luz de tu cámara oscura, El infranqueable cerrojo de tu armadura.


Em Todos a sus puestos, percebo uma espécie de cinismo sarcástico e conformado em relação à existência, que, enquanto postura e manifestação artística, me agrada. Poderia chamar de uma canção imagética, visto que várias imagens me vieram à cabeça:


Y aunque no haya una razón,
Todos a sus puestos,
La vida puede que no
Se ponga mucho mejor que esto


Por una vez que no duele,
Todo el mundo a bordo
Que la pena cante hoy
En oídos sordos.”



Na cover de I don't worry about a thing, o compositor ataca de Big Band americana, cantando em inglês um tema jazzístico em que se conclui: “I don't worry about a thing cause NOTHING is gonna be alright”. No fim das contas, talvez a tranquilidade (despreocupação) decorra é da certeza (boa ou ruim) mesmo.

Noctiluca vou apenas transcrever: “La noche estaba cerrada/ Y las heridas abiertas/ (…) Tenía la edad aquella/ en que la certeza caduca/ (…) Algo de aquel assombro/ Debió anunciarme que llegarías.

Grande cara. Poesia, técnica, simpatia e carisma com o público (vejam esse video em que ele entra no palco vendo Uruguai X Alemanha pela Copa ), e uma aguda e sincera sensibilidade, tudo no charme da lengua española.

Por fim, já que nem tudo é arte, vale registrar que a melhor música do sertanejo universitário foi Delegada, de Fernando e Sorocaba.

Que 2011 chegue com boas surpresas musicais.



Escrito por Rauber às 21h36
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Anos Lula

 

Confesso que, vendo o presidente Lula em seus últimos atos, acabo tomado por uma sensação de nostalgia precoce, um pouquinho indigesta, feito uma saudade do dia de ontem, feito uma ingrata quarta-feira de cinzas.

É cedo para fazer balanços definitivos dos anos Lula. A História, essa idosa e sábia senhorita, é cautelosa em seus julgamentos. Mesmo porque certo número de informações demora a vir à tona.

Ainda que não fosse assim, não teria a pretensão de vir aqui analisar os méritos e deméritos do Presidente – tema que vem sendo enfrentado desde a campanha eleitoral pelos analistas de escol.

Fico apenas com o personagem Lula.

Como não simpatizar com o sucesso do operário nascido no interior de Pernambuco que ascende à Presidência da República ? O homem que perdeu 3 eleições seguidas e na quarta tentativa levou o cargo ?

Somente tais circunstâncias, e existiriam várias outras, já seriam suficientes para transformar Lula em um dos maiores fenômenos políticos da (nunca antes na...) história do país.

A verdade é que seu carisma pessoal, por vezes, dobrou o mundo. De Barack Obama ao Le Monde (um jornal historicamente esquerdista, reconheça-se).

Difícil imaginar data tão marcante, sob o prisma da recente política brasileira, como aquele domingo de outubro de 2002 em que teclei o 13 na urna eletrônica e Lula foi eleito.

Pela manhã, tocava na rádio Ipanema a música “Luis Inácio”, dos Paralamas, em clara campanha velada – e vedada. À noite, a apuração eletrônica confirma as pesquisas, José Serra joga a toalha e o sapo barbudo faz emocionado pronunciamento. O maior momento da Nova República (pós 1985), sem dúvida.

Dificilmente esse grau de comoção política será repetido. Seja coletivamente, seja no meu âmago individual.

Nossa democracia consolidou-se. Os grupos políticos minimante sérios têm se alternado no poder. Os líderes ostentam estilo mais sóbrio. Não há mais espaço, ao menos nos cargos executivos e de maior relevo, para propostas amalucadas, aventureiros ou para um novo Fernando Collor.

Tudo isso é positivo. Maduro. Todos sabemos que a gestão pública é coisa séria e a alternância no poder uma obrigação democrática.

É provável que Dilma Vana Rousseff faça uma gestão mais técnica, profissional, firme, no que diz respeito à condução cotidiana dos temas administrativos e no trato da coisa pública.

Temos uma chefe de estado (e de governo) de perfil eficiente, ao estilo dos primeiros ministros europeus, visivelmente mais lúcida do que seus pares continentais, como Cristina Kirchner, Evo Morales, Rafael Correa, José Mujica...

Ainda assim, paira no ar um sentimento de festa acabada, de ciclo histórico findo, de fim da era primitiva (romântica ?) da democracia renovada.

Um sentimento de que acabou o sentimento na política brasileira. Para o bem e para o mal.

 

Fico com a mensagem de Elio Gaspari, transmutada em uma carta de Franklin Roosevelt ao nosso Luis Inácio:


Parabéns, presidente, se o Brasil é uma Belíndia, o senhor levou 13 milhões para a Bélgica”

 

(Para quem dizia que seu país era uma Belíndia, o senhor tirou da Índia brasileira o equivalente à população de toda uma Bélgica. Entre 2003 e 2009, o número de pobres passou de 30,4 milhões para 17 milhões. )

 



Escrito por Rauber às 15h17
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Fragmentos de uma derrota

 

1) O místico

 

Lhes digo o que ocorreu no Mundial 2010:

Em um gesto de sincera fraternidade e solidariedade, juntamente com outros colegas da jornada pelo Japão em 2006, me propus a guiar e orientar um grupo de colorados pelos rincões desse mundo, munido do meu superávit espiritual acumulado junto aos deuses do futebol – inclusive por serem estas as únicas divindades que respeito - e do conhecimento profano adquirido nas sarjetas existenciais.

Pensava eu, junto a meus messiânicos botões, que toda a energia cósmica positiva advinda do seleto grupo de testemunhas da façanha de 2006 seria suficiente para conduzir o amplo contingente de desafortunados torcedores (no popular: os “pé-frios” que invadem o Beira-Rio em marés subitamente favoráveis) ao caminho da virtude. Mais do que isso: havia a pretensão de transformá-los em partícipes e multiplicadores dessa chama anímica vitoriosa. Uma missão deveras nobre, a nossa.

Infelizmente, como sabido, fato é que esses quase 10 mil seguidores presentes em Abu Dhabi acabaram por sobrepujar, no campo anímico/astrológico/espiritual, toda aquela energia cósmica que nosso pequeno grupo buscava espraiar.

A partida foi decidida no âmbito celestial: faltaram alguns colorados de 2006.

Palavras da salvação.


2) O intelectual


O elemento futebolístico agrega a viagens dessa estirpe um caráter missionário, tal qual as longínquas jornadas bélicas de outrora ou mesmo uma finda crença ideológico/política. É como se, a partir deste motivo condutor (leitmotiv) comum e unitário (conquistar um título), fosse atingido um estado de coesão societal inexistente na esquizofrênica contemporaneidade posta - unidade provocadora de românticos (ingênuos) sentimentos comunitários de pertencimento unívoco e incondicionado.

Daí que foi como se um Mazembe existencial estourasse tal bolha e nos trouxesse de volta ao faniquito cotidiano no qual inexistem objetivo traçados, caminhos moldados ou portas de saída previamente indicadas.

Sem pai nem mãe, sem fim nem norte, é assim que há de ser.

Mazembe é um recurso heurístico para a compreensão disso tudo aí.


3) O torcedor de futebol


Um time que passou o campeonato brasileiro se arrastando, que não ganhou de Vitória e Avaí dentro do Beira-Rio, que posou para fotos ridículas na Zero Hora, que não tem goleiro e nem centroavante, que perdeu aqueles gols feitos, não tinha como ser campeão mundial. Isso e tudo aquilo mais que apurou a crônica esportiva.



Escrito por Rauber às 23h54
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Belíssima canção



Escrito por Rauber às 01h47
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Retorno

Ante o silêncio do blog, poderia apelar para aquele tradicional papo de que andei ocupado, que ainda estou desnorteado pelo show de Paul, que perdi 10 horas para voltar da praia da Pinheira no feriado do dia 15, que fui padrinho de casamento por vez primeira (Parabéns, João e Clarice!), que me divirto horrores esfacelando coco verde com facas precárias, que acabei de montar uma baita coletânea do Chico Buarque, que estou guardando a inspiração para as mui clichês “crônicas parisienses” que virão em dezembro, e por aí vai.

Pra resumir, devo confessar que ando meio ocupado mesmo, mas que foram semanas ótimas, as últimas.

Claro, vez em quando dá saudade desse cercadinho aqui, modesta terra em que finquei minha bandeira (Ui) no latifúndio internético.

Daí que volto atropelando tudo com algumas coisas que me vieram à cabeça no dia de hoje.

Primeiro: como a simples mudança da “mão” (sentido) de uma rua pode alterar nossa percepção do ambiente. Prédios que antes não chamavam a atenção, lojas, fachadas, ângulos novos de locais manjados, tudo pelo mero câmbio de perspectiva do motorista. Sugiro subir/descer a Garibaldi e a Santo Antônio, ladeiras do Bom Fim que desaguam no Parque da Redenção.

Outra: de onde surgiu a expressão “caiu como uma luva”? Por acaso alguém já viu uma luva entrar de cara nos dedos ? Bah, eu pelo menos me complico com esse TARECO.

Pois subi a Garibaldi, desci a Fernandes e dei uma passada na Espaço Video, de fininho, assim como quem não quer nada e ainda por cima tá devendo pra banca. Realmente, não tenho assistido muitos filmes, fora aqueles que todo mundo acaba vendo (sim, Tropa de Elite 2 é bom), de modo que fui parar no Serasa e SPC cinematográficos, com o débito crescendo de forma mais galopante que os erros de arbitragem em favor do Corinthians.

Uma vez na locadora, acabei revisitando o baú dos anos 90, década que já começa a render certos revivals e as temidas festas temáticas (dá-lhe Balonê).

Comprei uma edição nova do Cães de Aluguel (1992), dando sopa no balcão por R$ 16,90 filme que andava meio esgotado, ante o crescimento do fenômeno Tarantino ou algum problema de distribuição mesmo. Reverei.

Loquei Crash, estranhos prazeres (1996 – David Cronenberg), cujo mote central, a grosso modo, gira em torno da relação entre acidentes automobilísticos e sexualidade.

Sim, é um tanto bizarro. E, como qualquer filme que trabalha temas como violência e perversões sexuais, ainda por cima correlacionando-os (!), há de se ter estômago para algumas cenas e para o universo ficcional que vai se projetando.

Película que transcorre em tom obscuro, através da perturbada ótica dos personagens, o longa, além do choque e provocação, conduz a certas instigações e aproximações sobre temas caros ao nosso tempo, como a velocidade, a tecnologia, o tráfego de automóveis, a busca hedônica por prazer, as patologias vindo à tona em estado bruto.

É um filme original, mas, deu pra perceber, pesado.

Vale a pena assistir, no devido momento e estado de espírito.

Fiquem pianinho aí que eu volto em breve.



Escrito por Rauber às 23h49
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Macca



Escrito por Rauber às 00h11
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A vida é um condomínio

 

Algum morador roubou duas placas de sinalização do meu condomínio, afixadas na garagem do prédio. Diziam algo como “Mantenha a porta fechada”.

Claro que há aí um certo vandalismo, uma atitude reprovável de algum JOÍNHA. Porém, para além do simples fato, não me furto de enxergar, por trás dessa pequena e inusitada delinquência, um quê de terrorismo poético e/ou de um bizarro senso de humor.

Nas palavras do genial Cortázar, “O fantástico irrompe no cotidiano, pode acontecer agora, neste meio-dia de sol em que você e eu estamos conversando” (Conversas com Cortázar, p. 37)

Será que as placas são um item de colecionador ? O cidadão tem um cone de trânsito, uma placa de carro e, sei lá, uma CAPIVARA empalhada do Pampa Safári na sala.

Será um cleptomaníaco de escol ? Desses que começam pegando canetas e quando vê tão roubando gravatas nos EUA ?

Algum protesto juvenil contra o aumento do condomínio, o preço do Yakult ou contra as instituições do “sistema” ?

Algo mais pessoal, tipo um pé na bunda ? Nesse caso, “Mantenha a porta fechada” exerceria um caráter simbólico/metafórico de maior conteúdo, aparentemente.

Estou a imaginar, também, o herói colando as placas na porta do seu quarto, mostrando pros amigos ou dando-as de presente pra sogra, sempre com um sorrisão de ponta a ponta.

Para além desse deboche todo, porém, poder-se-ia vislumbrar - também - algum rompante artístico/estético. Como se as placas fossem feias e não combinassem com o layout condominial. Ou que as portas da garagem simplesmente NÃO devessem ficar fechadas, por isso projetar um significante de negatividade ou coisa que o valha.

Todas essas (des)razões estão na impenetrável esfera da individualidade do Outro, inapreensível por natureza, por maior o exercício de projeção e empatia.

Sim, se descobrirem algo (foi instaurado um Inquérito Policial) eu conto aqui. Desde já fica a torcida para que a realidade não estrague meus devaneios ficcionais.



Escrito por Rauber às 23h42
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De Tóquio ao Golfo Pérsico

Se aprochega o tempo de mais um Mundial Interclubes.

Dessa vez, o Internacional orgulhosamente convida seus seguidores a se deslocarem ao Golfo Pérsico, mais precisamente para Abu Dhabi, emirado árabe grudado em Dubai, aonde será possível contemplar prédios estapafúrdios, vagar por trezentos shoppings mirabolantes, driblar certas proibições locais, chafurdar na areia quente, fazer VÔO INDOOR, dentre outras peripécias.

Enquanto a gauchada vai tirando o pó daquela fantasia de sheik e entoando seus cânticos em árabe (te liga no hino), me pego a revigorar as memórias do torneio anterior , disputado em Tóquio em 2006. Estive por aqueles dias na megalópole japonesa, acompanhando o campeonato e curtindo uma viagem verdadeiramente adjetivável como inesquecível, em muitos sentidos.

Disponho de certo material daquela conquista (fotos, vídeos, anotações, jornais, pôsteres, flâmulas e até um livro), que até mereceria uma melhor organização e talvez rendesse uma série de histórias e crônicas.

Por ora, vou linkar uma singela amostra. Apareço neste vídeo da TV japonesa lá pelos 0:24 segundos:


Há um quê de surreal nessa gravação, desde o estilo meio amalucado da televisão deles até a edição da matéria. Selecionaram um fragmento da minha fala, meio fora de contexto e – aparentemente – sem muita tradução para o japonês. Gostaria de um dia descobrir o que escreveram naquela legenda, se alguém souber japonês agradeço.

Lembro que esse jornalista era brasileiro (sansei ou nissei) e foi conversar conosco, curioso pelo fato de estarmos cantando uma música de torcida com "arigatô" no meio. Daí eu falei um pouco sobre isso e acabou indo ao ar, junto com a impressionante versão daquela menina para o hino do colorado.

Buenas, de lá pra cá, a Fifa decidiu dar ao mundial um caráter itinerante, levando a bola pros Emirados, pelo menos nesse biênio 2009-2010. Não custa sonhar que um dia a bola vá rolar em Uruguaiana ou na praia do Hermenegildo - já que até a Libertadores foi pra Livramento...

No fundo é bom que não se retorne a terras nipônicas, desde o meu particularíssimo umbigo. Algo em mim está a dizer que certas experiências curtas e intensas não devem ser repetidas. Há uma ilusória graça que é própria do efêmero. Só o passageiro se eterniza - ou tem potencial para tanto. De toda sorte, me parece justo que não se tenha de correr o risco de relativizar a profundidade de tão boas lembranças.

Tóquio permanece indelével na retina, do alto dos arranha-céus, nos trens lotados, nos olhares curiosos, no indecifrável idioma, na companhia paterna e em um certo grupo que se tocou a desbravar o mundo e formar uma amizade.



Escrito por Rauber às 19h36
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Viagem

Esse tava guardado na gaveta do note há uns dias. Revisei e desovo.

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Já estive em Brasília umas 6 vezes, quase sempre a trabalho. Da primeira vez, fui e voltei de ônibus – 36 horas cada trecho Porto Alegre/Brasília.

Pois foi esse o número aproximado de horas que passei na capital federal dessa vez.

Daí que vou me enveredar por certa “crônica de viagens”, tipo de texto que é um tanto clichê, mas que acaba se ajustando bem a esses compromissos profissionais que a vida cedo ou tarde nos impõe. O contato com o novo e a simples quebra da rotina, aliados à natural introspecção de uma viagem – em vários momentos – solitária, acabam por aguçar a percepção do vivente.

Indico, aliás, o Diário de Viagem, do sempre brilhante Albert Camus. Lá por 1950, o argelino cruzou o Atlântico em um navio e conheceu a América do Sul, onde proferiu várias conferências e palestras. Camus é o cara que achou Porto Alegre e Buenos Aires feias, não se impressionou muito com Rio e São Paulo, gostou de Montevidéu, achou bonitas Recife e Olinda. Grande sujeito.

Afora algumas gratas surpresas (gastronômicas, inclusive), devo dizer que no geral não sou o maior fã da ensolarada capital federal.

Para além do ar seco e do calor obsceno – e não há muita brisa a amenizá-lo –, me incomoda, acima de tudo, a dificuldade de caminhar pelas ruas. Tudo é longe e os acessos obscuros. Quando me dou conta, estou atravessando a varanda de um prédio, cortando o estacionamento externo do condomínio ou pisando na grama pelo simples fato de inexistir uma calçada.

Claro que a gente brasiliense não tem nada com isso e vai tocando sua vida – em seus automóveis, como a maioria dos habitantes das grandes cidades.

Gozado, aliás, como a propalada educação no trânsito se resume a parar nas faixas de pedestre, gentileza que parece conceder carta branca a todas as outras usuais mutretas do tráfego. A prática de uma boa ação parece nos alçar ao propalado (e risível) conceito de “bom cidadão” ou “cidadão de bem” (próprios de um maniqueísmo atroz), abrindo espaço para o autoperdão com relação a todos os outros comportamentos inadequados. Ah, nossos mecanismos de defesa e administração de culpas.

Gosto da arquitetura (Patrimônio Cultural da Humanidade), do concreto, da imponência, dos monumentos, dos prédios públicos, tudo tão contrastante com a sincera humildade daqueles que ocupam os postos mais braçais da República .

Desta feita me hospedei no Hotel Nacional, indicado pelo evento. Consta do site que lá se hospedaram a rainha Elisabeth, o presidente Jimmy Carter, dentre outros chefes de Estado, o que já me soou suficientemente interessante. Hotel antigo, desses com um hall imenso, carpetes desgastados, cortinas grossas, ar-condicionado falhando, banheiro e closet amplos. Interessante a vista da Esplanada. Aroma nostálgico no ar.

Palestras boas e outras nem tanto. Maldito sono que me assalta em alguns momentos.

Encontro algumas pessoas e consigo parceria para jantar e tomar uns chopes de noite, o que sempre tem seu valor – ainda que em um shopping popular do Distrito Federal.

No segundo dia tudo é sempre mais do mesmo, diria nosso arrefecido espírito aventureiro. A vontade de voltar para casa e a lembrança das ocupações que me aguardam em Porto Alegre cobram seu tributo.

Aterriso na Porto dos Casais por volta das onze da noite.

Lar, meu sétimo andar. Licor no computador. Travesseiro, te quero por inteiro.



Escrito por Rauber às 19h53
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Tarso venceu por um bigode

Há de se ter certo cuidado ao transpor teorias de botequim para o papel.

É que aquelas palavras geniais e profundas, uma vez descontextualizadas, ou melhor, desalcoolizadas, por algum motivo (que desconheço) não causam o mesmo impacto. Nada mais sem graça, aliás, do que estar sóbrio em uma roda de bebuns.

Já tomei as mais variadas e profundas decisões em mesas de bar, como qualquer botequeiro convicto. Me mudei para vários lugares do mundo, casei e descasei uma pá de vezes, montei empresas milionárias, exerci grandes ofícios. Também já resolvi os mais variados problemas práticos e teóricos com invulgar precisão e ênfase, num espectro de assuntos que vai da melhor forma de amarrar os sapatos até as condições de possibilidade da ética discursiva de Habermas em países periféricos de modernidade tardia como o Brasil.

Nada disso, claro, sobrevive ao dia seguinte - “o que é dito no bar fica no bar”, assim como o que ocorre em Las Vegas.

Há uma certa imunidade implícita àquilo que é dito em uma mesa de bar, tal qual a imunidade de que gozam os parlamentares quanto às suas opiniões, palavras e votos.

Ah, a mesa de bar. Notável ambiente de fantasia e deliberação.

Pois bem.

Fato é que uma dessas teorias segue martelando minha cabeça e está a merecer registro, o que deve ser feito de imediato para que não percamos o rumo histórico da prosa.

É o seguinte: estou convicto de que Tarso Genro ganhou o governo do Rio Grande do Sul por usar bigode.

Nosso novo governador, na ausência de trunfos como ser filho do Chico Buarque – glória imputada ao pernambucano Eduardo Campos (vide boatos locais), o campeão de votos com 82,84% no primeiro turno –, resolveu apostar nesse traço estético de indiscutível relevância. Na verdade, na sua manutenção, já que o político o enverga há largo tempo.

É que uma eleição majoritária como a de governador, em um sistema personalista como o presidencialismo brasileiro, passa muito por um jogo de projetar, nos candidatos, os valores que integram o imaginário coletivo da maioria da população, marcadamente em um momento histórico em que o debate ideológico perdeu peso e os projetos de governo são muito semelhantes.

Dito de outro modo: não havendo grande diferença entre os postulantes (e no RS todos representavam linhas de centro-esquerda e social democracia), ganhará o cupincha que conseguir reduzir seu nível de rejeição, a partir, dentre outros fatores, da identificação pessoal a primitivos modelos populares, ainda presentes no imaginário de boa parcela da sociedade.

É aí que entra o chumaço de pêlos faciais.

Historicamente, se associou o bigode a valores como a retidão moral e a valentia. Deriva daí a expressão “fio do bigode”, do tempo em que a palavra de um homem tinha valor.

Ainda no ramo dos ditos populares, há o “barba, cabelo e bigode”, a denotar que um homem completo faz uso das três formas capilares.

Aos que gostam dos modelos estrangeiros, veja-se que andou rolando o campeonato europeu de barba e bigode.

Aos do pago gaúcho, remeto à louvável campanha Celso Roth de bigode no mundial.

Digo de passagem que ostentei um razoável porém cumpridor CAVANHAQUE, entre meus 19 e 20 anos, o que indiscutivelmente se mostrou decisivo à formatação do meu caráter. Trata-se de testemunho pessoal à hipótese lançada.

De suma importância, também, o fato de que tal visual se associa ao arquétipo do gaúcho estancieiro dos pampas, modelo consolidado pelo MTG e mídia, o que seguramente garantiu a Tarso Genro uma boa votação no interior do Rio Grande, ainda mais quando comparado a uma desgastada Yeda e a um porto-alegrense cara limpa e acomodado como José Fogaça.

Veja-se que o petista somou 54,35 % dos votos, ou seja levou a contenda por pouco mais de 4%, distância pequena que atribuo a sua vitória na batalha arquetípica travada entre o gaúcho bigodudo do interior (Tarso) e o guri de apartamento da capital (Fogaça).

Quanto à atual governadora (Yeda), tenho que esta nem chegou a adentrar a disputa, posto que o governante de plantão sempre é carta fora do baralho na política gaúcha. Seu arquétipo é o do vencido, daquele que por pura catarse popular é deposto do poder.

Claro, assim, que a exígua porcentagem deve ser creditada ao honroso bigodinho do candidato vencedor.

Perceba o bom entendedor, portanto – a partir desta frase o mau entendedor também –, que não estou dizendo que todos os votos de Tarso se devem ao bigode, apenas a margem decisiva. Ganhou pelo bigode.

Dito tudo isso, e tendo em mente que o texto, tal qual o passo de um ébrio, ficou a mover-se em variações bruscas de ritmo e linguagem, me despeço da mesa, mando vir uma rodada aos convivas e penduro a conta.

Nos vemos nos bares da vida.



Escrito por Rauber às 22h37
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Sobre Cultura Portenha e outros Sons

 

Passado em parte o frenesi eleitoral na estimada Pindorama, ainda que na expectativa por segundo turno, prorrogação e pênaltis, cumpre voltarmos às usuais amenidades que – felizmente – teimam em COLORIR (Ui!) nossa existência. Não, não vou falar de psicologia evolucionista, das propriedades do Yakult nem indicar o blog do Contardo Calligaris, em que pese a inegável relevância desses temas.

Fiquemos com um pouco de música.

Saiu novo álbum do Gotan Project, os neotangueiros mais bem sucedidos e de certo modo os pioneiros do tango eletrônico. Desde que estive por vez primeira em Baires, o gênero já ocupava bom espaço nas ruas da capital, o que é natural.

Além do Gotan, destacavam-se o projeto Otros Aires e o Bajofondo (que andou emplacando trilha de abertura de novela das oito – Pa' Bailar ).

Em se tratando das coisas portenhas, aliás, aproveito para recomendar o site da Revista Ñ, suplemento cultural do Clarín que acompanha o periódico aos sábados, ao preço de uns 2 pesos. Na minha opinião, o melhor suplemento cultural destas bandas do Mercosur, superior ao finado caderno MAIS da Folha de São Paulo (hoje repaginado no caderno Ilustrísssima). Claro que, por vezes, o foco está na Argentina e nos falta a referência local, mas isso não é a regra.

Pois o novo disco do Gotan se chama Tango 3.0.

No geral, achei um álbum mais palatável e digerível que os anteriores, o que não é de todo um elogio. Talvez a fórmula tenha se tornado conhecida e a mistura sonora não mais impacte como antes. Talvez seja um trabalho mais pop.

Há uma presença maior de linhas vocais e letras, bem como uma incursão por temas mais calmos, arrastados.

Destaque para Desilusión, Peligro, La Gloria e De hombre a hombre, canções consistentes com a marca do Gotan. Rayuela, merecidíssima homenagem ao mestre Cortázar e sua obra-prima (em português O Jogo da Amarelinha), começa bem mas sinceramente não consegui gostar muito do coro de criança.

Curiosamente, há uma faixa chamada Panamericana, tema instrumental que nada tem a ver com o HIT da vez.

Um bom disco, mas de um grupo tão criativo e conceituado quiçá se esperasse um algo a mais.

Tocarão em Porto Alegre no próximo 15/10.

Outro som: fui descobrir esses tempos que em 2006 uma banda (Easy Star All-Stars) gravou na íntegra o clássico disco Ok Computer (1997), do Radiohead, em versões REGGAE. Nome do trabalho é Radiodread.

Apesar da curiosa e corajosa proposta, o resultado final é bem similar ao original.

Como fã incondicional do Ok Computer, indiscutivelmente um dos 3 melhores álbuns dos anos 90, gostei da reverência ao original. Porém, não sendo apreciador do ritmo de JAH e de todo o auê Rastafaray, acabo não vendo muito sentido em ouvir este álbum ao invés do Radiohead em si.

De qualquer modo, ficam de parabéns pelo atrevimento de mexer com um baluarte do rock.

Fui. Fiquem ligados.



Escrito por Rauber às 00h32
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Tem de tudo nessa Hollywood...

 

Há algo de errado em Hollywood quando um filme como “Comer, Rezar, Amar” é aguardado com certa expectativa pelo público. Sou do tempo em que os filmes românticos da Julia Roberts eram motivo de chacota cinematográfica.

Como diria Paulo Francis: “não vi e não gostei”.

Safra meio medonha essa do cinemão americano.



Escrito por Rauber às 22h55
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Microfísica

 

Divisão de tarefas no salão: ela se maquia no espelho do carro, eu costuro as faixas de trânsito e todos roem suas unhas.



Escrito por Rauber às 23h28
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Micropoder

- Deliberadamente tomo decisões impulsivas para exercitar a irracionalidade - o que faz com que essas decisões não sejam impulsivas, mas já racionalizadas.



Escrito por Rauber às 23h17
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Foi o 20 de setembro...

 

Parabéns, gauchada.

Vai um quebra-costela amigo pra todos nós.

Que nosso orgulho não se transmute jamais em menosprezo a outros povos, mas em altivez para tocar o futuro dessa aguerrida gente que veio a escolher e chamar de seu o extremo sul do Brasil.

Como a referência à tradição não precisa ser caricata, fiquemos com Vitor Ramil e Caetano Veloso - “Milonga de los Morenos”, do recente álbum délibáb.




Escrito por Rauber às 19h49
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Sobre Monarquias, Pleitos e Eleitos

O período de eleições me faz lembrar de alguns momentos da nossa história política. Por algum motivo, me peguei a pensar naquele bizarro plebiscito de 1993, em que tivemos de optar por presidencialismo ou parlamentarismo, República ou Monarquia.

Do lado monárquico, figuras como Hugo Carvana, rei da malandragem nos cinemas, e o célebre bordão “Vote no Rei”.

Durante um tempo defendi a instauração do regime monárquico no Brasil, desde que (e somente sob essa condição) EU fosse coroado o imperador (perdeu, Adriano). Ok, admito que ainda simpatizo com a ideia – ou pelo menos algum de meus heterônimos. Minha política seria o mais puro e descarado pão e circo, com futebol de graça, bolsa-cerveja, jantares reais no Itamaraty, distribuição de títulos nobiliárquicos, “beija-mão” e guilhotina na oposição e imprensa. Acho que não mudaria muito o que temos aí.

Mas voltando ao plebiscito, e antes que me acusem de menoscabar coisa séria: fato é que o debate em 1993 acabou partidarizado, em muito porque a esquerda, então fortalecida pela queda de Collor e em alta nas pesquisas, abraçou o presidencialismo.

Tempos de certa imaturidade política aqueles, mas de maior emoção e comoção, vide a curiosa eleição de 1989 - disparada a mais sensacional da história. Simplesmente TODO mundo criou coragem e foi pra disputa, do Silvio Santos (sim, depois impugnaram sua candidatura) ao Marronzinho. Tavam lá peleando: Covas, Ulysses, Brizola, Lula, Gabeira, Maluf, Enéas, AFIF, Collor, entre outros integrantes da fauna.

Hoje os partidos ficam fazendo um doce para lançar candidatura presidencial; acaba sempre com 1 candidato do PT, 1 do PSDB, alternativas de esquerda (PSOL, PV, PSB, PSTU, PCO) e o Ei, Ei, Eymael.

Não que alguma bizarrice não esteja presente nas eleições 2010 – aí estão Tiririca, Jefferson Camilo, pagodeiros, jogadores de futebol e tal –, mas, para o bem e para o mal, parece finda aquela época de algazarra política e consolidada a democracia brasileira. Quem quiser reviver a época DE OURO que procure no You Tube.

A profissionalização do processo político, contudo, parece carregar em si novas imperfeições e deturpações.

O foco da campanha passa a ser o obsessivo cuidado com a imagem (visual, palavras, tom de voz), a cínica fuga de temas polêmicos, a não exposição, a apresentação de plano de governo o mais vago possível, ou seja, o não comprometimento.

O perfil do candidato vencedor é o de alguém que consegue se mostrar o mais neutro, inerte e inofensivo possível, para, consequentemente, atrair menor rejeição do eleitor. Quanto menos o sujeito expressar opiniões e firmar posição, melhor. O popular “em cima do muro”.

Isso tudo, poder-se-ia (dê-lhe mesóclise) ponderar, se insere em um contexto global e é próprio de nossa pós-moderna era – fluida época em que os laços sociais são precários e não duradouros. Desde essa leitura, a ausência de comprometimento não seria, pois, exclusividade do jogo político. Pano pra muita manga, seguramente.

De qualquer modo – e todo post (ou Carnaval, diria Camelo) tem seu fim –, talvez não seja desrespeitoso imaginar como se faria uma cerimônia de coroação em nossos dias. Um bom exercício imaginativo, é certo.



Escrito por Rauber às 21h23
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20 melhores dos Beatles na última semana

 

Embalado pelo meu progresso no Beatles Rock Band do Wii (tô ficando galo na batera), fiz uma despretensiosa lista das melhores dos fab four, só entre as que ouvi nos últimos dias e as que andei tocando no joguinho.

Algo de momento e sem ordem de preferência, pois daí seria um esforço hercúleo e inútil. Fora que absolutizar dados valores em hierarquias é de certa forma extrair do ser o fator temporalidade (divertido isso de criar bases teóricas fajutas para coisas banais).

Mas vamos lá:


- I Will

- Blackbird

- Revolution

- And I love her

- Here comes the sun

- You never give me your money

- Your mother should know

- Do you want to know a secret

- Drive my car

- I'm only sleeping

- For no one

- She said she said

- I want to tell you

- While my guitar gently weeps

- Getting better

- Norwegian wood

- Another girl

- Across the universe

- Hapiness is a warm gun

- The fool on the hill


Já dá pra se divertir.

 



Escrito por Rauber às 00h00
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Net, palavras e o clima – aleatórios olhares e aliterações do alheio

Esses dias percebi que a Net liberou uns canais Telecine HD, decerto a título do que se passou a chamar de 'degustação'.

Impressionante, aliás, como essas palavrinhas de telemarketing que não tem NENHUM sentido se popularizam rápido. Talvez para alguns (ou muitos) esse tipo de expressão denote algum 'refinamento' - veja-se que 'degustar' está associado a apreciar sabores e aromas com apuro e leveza -, mas tal linguajar me soa inevitavelmente brega.

Buenas - e já tratei de modismo vocabular pelo blog -, fato é que estou com esse BRINDE, MIMO, OFERENDA (inclua aqui alguns sinônimos classudos ou divertidos), da gloriosa TV a cabo.

Por ora, a maior utilidade dos canais parece ser assistir a trechos de filmes que ficaria com vergonha de ver no cinema ou mesmo locar. Assisti meia-hora de um “American Pie” e uns pedaços de “Haloween – O início”, enquanto caía o mundo lá fora e se estouravam postes de luz na terceira perimetral. Coisas da minha chuvosa capital, de um inverno que já começa a se despedir.

Tenho certa dificuldade em conceber cidades com pouca ou nenhuma variação climática. Dizem que em Brasília há um período de, sei lá, uns 3 meses sem chuva. Indagações. E não é tediosa a certeza de se levantar todos os dias sob o mesmo – ainda que agradável – sol e o céu de brigadeiro ? Como retirar o fator de imprevisibilidade – tão caro à vida humana – de algo relevante como o clima ? Quais interações e transformações daí decorrem ?

Não que já não tivesse sido assinante da rede Telecine. Apenas constatei novamente que: 1) passam muitos abacaxis; 2) repetem muito os abacaxis; 3) sim, até passam alguns filmes bons – os que eu já vi; 4) sim, há uns filmes razoáveis que eu ainda não vi – esses eu não consigo pegar do início.

Mas devo abandonar a acidez e confessar que DEGUSTEI um pouco o regalo, em parte pelo instável clima porto-alegrense, próprio do acaso mundano, pelo que talvez haja um fecho nessa acidentalidade toda que se está a aventurar pelo post.



Escrito por Rauber às 16h15
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Campeão de tudo e mais um pouco

 

Porto Alegre ontem transmutou-se em uma cidade monotemática. Acordamos com a Libertadores, almoçamos a Libertadores, trabalhamos pela Libertadores. Qualquer velhinha na fila do super queria saber se Alecssandro e Giuliano jogariam.

Uma aldeia monotemática e monocromática – vermelha.

Estou novamente no pico da Cordilheira. No Aconcágua, em Machu Picchu, no Trem das Nuvens e na Terra do Fogo. Estou abraçado ao Laçador e ao Cristo Redentor.

Tudo isso é meu. Ou melhor: nosso.

O futebol tem essa capacidade de nos catapultar para uma espiral de sentimentos os mais, digamos, pueris e inocentes (no bom sentido) de pertencimento, vitória e realização.

Tudo parece simples, completo e lúdico como um jogo ganho pode ser.

Mas dessa vez foi diferente.

Hoje o Inter é como aquela criança bem nutrida, sabida e que no Natal ganha só um mimo a mais, tipo um NEO GEO (Ah, anos noveeenta!). Estamos mal acostumados com o fastio da glória.

Em 2006 eramos uma criança carente que via os Natais passarem, solitária como uma senhora sentada no último banco da igreja. Não há como negar que a descarga de emoção e catarse foi maior no ano da graça de 2006.

Não sou um homem de muita fé, religiosamente falando. Quiçá um agnóstico moderado. Meu batismo só se deu aos 11 anos. Deixemos, aliás, esses dados biográficos no limbo, à espera da minha autobiografia oficial em 5 tomos - sou detalhista e tenho boa memória.

Fato é que, se existe algum grau ou espécie de justiça divina/celestial – mesmo um KARMA –, não há dúvidas de que a trajetória do Internacional entra nessa conta.

A penosa – para o Inter – década de 90 transcorreu dos meus 7 aos 17 anos, ou seja, na plenitude da infância e adolescência.

O que só piorava tudo. É que a galera regulada pelo ECA não paga contas nem tem grandes preocupações. Tem o dia todo pra jogar futebol, ver futebol, jogar futebol de novo e, claro, discutir futebol.

Vi o Inter ser eliminado por Ceará, América/MG, Londrina, Paraná Clube, etc, tudo pela maldita Copa do Brasil. Vi o time perder classificações na última rodada para Bragantino, São Caetano, Coritiba, União São João de Araras e outras nulidades e times já rebaixados.

Fui um dos poucos HERÓIS que foram a todos os jogos do Brasileirão de 1993 – Inter eliminado na primeira fase.

Nunca esmoreci.

Pois quis a vida – ou a tal justiça celestial – que os dissabores nos fossem devolvidos com juros e correção monetária, com indicadores gordos e cálculos astronomicamente inchados.

Duas Libertadores, Mundial no Japão, Recopa, Copa Sul-Americana. Fora uns quantos gauchões, goleadas e vitórias sobre o rival e filigranas como Dubai Cup e Suruga Cup.

Todos os títulos internacionais hoje em disputa no Brasil e na América – daí o Campeão de Tudo.

De todos eu já ganhei. A todos seguirei desafiando.

Que venha Abu Dhabi.

 



Escrito por Rauber às 23h13
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Microestado

 

Reino


- Na minha monarquia o que reina é a expectativa.

 



Escrito por Rauber às 18h12
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Microconto

 

Tempo


- E esse tempo? Não muda de vento?

- Filho, o meu tempo são dois ponteiros desconexos entrelaçando-se em uma caótica dança pelos cantos e limites de um velho relógio.

 



Escrito por Rauber às 00h04
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Cenas de uma vida menos ordinária

 

Interessante a impressão de que diversos fatos relevantes parecem se suceder de modo vertiginoso, sob o signo de uma exótica e caótica correlação. Ainda que isso nem sempre seja inteiramente agradável.

Sob outro ângulo, quiçá apenas um ajuntamento de curiosidades e acontecimentos.

Tudo está a depender do enfoque do diretor da película e do intérprete, como sempre.

Como traço comum, a fuga da mesmice, da mediocridade - no fundo é isso que se busca.


Cena 1: sustentação oral no Tribunal. Processo intrincado, fatos graves, segredo de justiça, ponderações, teses. Vitória unânime. Juízes em Berlim, mais uma vez. Justiça, sobretudo.

Cena 2: sovando carnes na churrascaria Montana, acabo vitimado pela imperícia do garçom – há que se ter cuidado com espetos afiados. Tira um talho do meu polegar. Sangra um pouco, a casa me fornece um band aid, nada de grave. Dor, reconheça-se.

Cena 3: comprando um refri no Beira-Rio, presencio estúpida – e sempre o é – cena de racismo (não consigo usar eufemismos para certos atos) contra atendentes do bar. Não entendi bem o motivo do rebuliço. Entre chateado e indignado, faço curta cena e discurso no balcão, entrego meu cartão profissional e palavras de apoio ao funcionário, o qual agradece. Indignação.

Cena 4: Vitória colorada. Golaço de Giuliano, atuação sólida e superior ao adversário. Bela a partida.

Tetralogia dos valores cotidianos – Justiça, Dor, Indignação, Beleza ??

 



Escrito por Rauber às 02h22
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